WT Insights · Operação de TI

Quando o provisório ganha estabilidade no emprego

A gambiarra pode salvar o dia. O problema começa quando ninguém volta para concluir o que deveria ser temporário.

06 de outubro de 2026 · 5 min de leitura
Scanner de código de barras com cabo danificado e várias emendas

Primeiro, foi apenas uma emenda.

Um reparo rápido para o scanner continuar funcionando até que alguém pudesse providenciar a troca do cabo.

Depois veio outra emenda. E mais outra. Quando perceberam, aquele scanner já estava sendo mantido por alguns fios, muita fita e uma quantidade considerável de fé.

A imagem chega a ser engraçada — até lembrarmos que situações assim são mais comuns do que parecem.

Em muitas empresas, o improviso nasce com uma boa intenção: evitar que a operação pare.

O equipamento apresenta um problema, alguém encontra uma solução emergencial e o trabalho continua. Até aí, tudo bem. A capacidade de resolver rapidamente um imprevisto é importante, especialmente em operações nas quais alguns minutos de parada podem afetar vendas, atendimento ou produtividade.

O problema começa quando ninguém volta para resolver definitivamente aquilo que deveria ser provisório.

O provisório que ninguém mais percebe

Depois de algum tempo, a adaptação deixa de chamar atenção.

O cabo remendado continua sobre a mesa.
O computador que precisa ser reiniciado todos os dias vira parte da rotina.
A impressora só funciona depois de abrir e fechar a tampa três vezes.
O sistema trava, mas “é só entrar novamente”.

A equipe aprende a conviver com a falha.

E essa talvez seja a parte mais perigosa: quando um problema se torna frequente, ele deixa de parecer um problema e passa a ser tratado como característica do equipamento.

No caso do scanner da foto, o aviso está bem claro. O cabo praticamente escreveu o próprio pedido de aposentadoria.

Mas nem todos os riscos da operação são tão visíveis.

Alguns aparecem como lentidão, chamados repetidos, pequenas interrupções ou minutos perdidos ao longo do dia. Separadamente, parecem detalhes. Somados, representam desperdício de tempo, queda de produtividade e risco de parada.

A gambiarra também gera custo

O improviso parece econômico porque evita uma troca imediata. Mas essa economia pode desaparecer rapidamente.

Cada vez que o scanner falha, alguém interrompe uma atividade. Outro profissional tenta ajustar o cabo. A equipe de TI é acionada. O atendimento fica mais lento. O equipamento volta a funcionar — até parar novamente.

O custo não está apenas no valor do scanner ou do cabo.

Está no tempo das pessoas, na repetição dos chamados, na instabilidade da operação e na possibilidade de a falha acontecer justamente no momento de maior movimento.

Porque equipamentos assim raramente escolhem uma terça-feira tranquila, às três da tarde, para parar.

Eles gostam de emoção.

Normalmente escolhem o fechamento do mês, o horário de pico ou aquele dia em que metade da equipe está em reunião.

Improvisar não é o problema

É importante dizer: nem todo improviso é ruim.

Em algumas situações, uma solução emergencial é exatamente o que impede a operação de parar. O profissional de TI precisa, muitas vezes, contornar um problema rapidamente e ganhar tempo até a correção definitiva.

A diferença está em saber quando o improviso cumpriu sua função.

Uma solução temporária precisa ter prazo, responsável e próximo passo definido. Caso contrário, ela corre o risco de ser incorporada à rotina.

E, quando isso acontece, o “depois a gente troca” pode permanecer por meses.

O provisório precisa ter data para terminar

Uma boa gestão de TI não elimina todos os imprevistos. Isso seria irreal.

Mas ela evita que medidas emergenciais se tornem permanentes sem que ninguém perceba.

Isso exige registrar o problema, avaliar o risco, definir a correção e acompanhar até que ela seja realmente concluída.

Talvez o scanner continue funcionando amanhã. Talvez sobreviva por mais uma semana. Pelo histórico de emendas, ele claramente possui um forte espírito de luta.

Mas a questão não é descobrir até quando ele aguenta.

A questão é entender por que a operação ainda precisa depender dele nessas condições.

Porque a gambiarra pode salvar o dia.

Só não deveria ganhar crachá, benefício e estabilidade no emprego.

Sua operação também convive com “soluções provisórias”?

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